Christian Targa (Gordo) o carismático guitarrista da banda Blind Pigs, também pode ser tido como um cineasta e videomaker de mão cheia (ainda que o próprio não admita, mas é!). Espécie de Spike Jonze tupiniquim, produziu, roterizou e dirigiu clipes de figurinhas carimbadas do rock nacional.
Desde o inicio de sua adolescência, o diretor buscou experiências na área: observando e estagiando. Com apenas 15 anos começou a se interessar pelo trabalho de produtoras. Com 18 anos, estava estagiando na área audiovisual e iniciando sua carreira como músico no Blind Pigs. Talento e sorte acompanham o artista que, em 96, lança seu primeiro disco com um selo da maior gravadora punk do mundo, Epitaph Records, o “Grita!”. Simultaneamente, a gravadora Paradoxx faz o mesmo pelo Brasil e outra gravadora japonesa também completa a divulgação da banda no mundo. Assim surgem duas carreiras paralelas na vida do músico e do diretor que crescem lado a lado acompanhando sua dedicação.
Mas o assunto não é musica, embora o fato complete o trabalho de Christian Targa. Hoje, seu propósito maior está em sua carreira cinematográfica. Recentemente, esta dirigindo um filme independente em Sao Paulo e alguns clipes de “peças raras” na região sul.
Orson Welles, um dos maiores cineastas de todos os tempos, cita em uma entrevista algo que pode sintetizar a obra de um diretor. “Uma das lições de um diretor é saber exatamente onde posicionar a câmera – aparentemente é um trabalho meramente técnico e pouco artístico, mas é aí que se enganam, pois esse é um trabalho que exige anos de treinamento e observação, além de um estudo apurado da técnica, e um olhar artístico para captar o momento exato. É a técnica em prol da arte.”
Quando questionado sobre suas influências, Christian não cita os bravos do cinema, nem os russos cults, nem os existencialistas malucos. Mas ressalta, “não que eu não goste deles”. Porém, é visível em sua pessoa e em seu trabalho que a única influencia dele é a vida. “Poético”, diria. “Eu gosto do cinema dinâmico, das coisas rápidas”. Completa ainda, “devemos acompanhar a evolução”.
Para quem tem interesse em conhecer o evolucionário trabalho do Christian, ele disponibiliza seu repertório no canal do youtube, www.youtube.com/christiantarga; e/ou no vimeo, www.vimeo.com/christiantarga. Em breve, alguns lançamentos de clipes de sua autoria com bandas do sul do país estarão bombando nas redes nacionais e internacionais. Vale a pena conferir!
“Eu busco extrair o melhor da banda ao vivo nos meus clipes. Trazer a energia da banda ao vivo para a imagem. Como sou músico também, me preocupo muito em valorizar os rifes e os tempos da musica.” Conclui.

Segue a dica para quem quer fazer a bandinha virar febre!

Juana Dobro

Uma analise

07/12/2010

 

Instrumento de diagnóstico sócio-psicológico da sociedade contemporânea, a linguística nos possibilita denotar a formação geral de uma pessoa e de um grupo a que esta pertence. Desde a infância até o final da vida. O homem sempre está a procura de respostas que possam explicar a linguagem, pois ela o acompanha desde sempre, isto através das mais diversas formas de expressão. Desta forma, a linguística estuda a estrutura (como se forma, sua origem, sua decomposição) e a função (qual papel como elemento comum a uma coletividade de linguagem humana). É por isso que ela se diferencia da gramática tradicional, normativa, que estabelece regras de correção para o uso da linguagem verbal, oral ou escrita.

Dentro dessa ideia da linguagem como abstração pode-se realizar um minucioso estudo da mesma, interligando-a no tempo e no espaço, por meio dos signos orais e escritos da comunicação. Assim, é possível criar um elo de interação de linguagem entre expressões como o cinema, a música e a literatura. De acordo com Saussure a definição de signo funciona como uma união entre significante (imagem acústica) e significado (conceito), sendo o significante o suporte material do signo ou de uma expressão.

Essa ampla ideia do estudo da linguística abriu o campo para esta seguinte análise norteadora, que busca traçar um elo (aparentemente visível) entre três expressões distintas de arte, sob uma mesma ótica: o medo de crescer e o receio às mudanças.

O objeto de estudo principal é a obra da ficção alemã “A Metamorfose”, do escritor Franz Kafka, onde evidenciam-se fatores como a desesperança do ser, o pessimismo com relação ao futuro e a falta de respostas às questões mais simples e às mais profundas.

Enfim, uma obra agressiva, mordaz, de cunho verídico, e, acima de tudo, de resgate de valores e princípios. A leitura de Franz Kafka é extremamente atual, em que pese ter sido escrita em 1912, contextualizada no momento histórico da crise da “Bélle Époque” que antecede a Primeira Guerra Mundial, Kafka está em meio a uma crise existencial, religiosa e racional, convergindo com o que poderia se chamar de “crise da Modernidade”.

Em paralelo à obra de Kafka, oitenta anos mais tarde, o norte-americano Tom Waits aborda a mesma questão da juventude eterna na letra da música “I Dont Wanna Grow Up” (regravada pelos Ramones em 1995), tendo servido de base para o filme curta metragem de Jim Jarmusch. Momentos geniais.

A ligação entre Jim Jarmusch, o realizador, e Tom Waits, o músico/ator, é bastante profícua. A combinação de elementos tão diversos como a ênfase à eterna guerra dentro de cada um e a disposição caótica de um “anjo” e um “diabo” habitando um mesmo corpo, faz deste vídeo-clipe um ícone tanto para a “geração X”, que logo ir-se-ia com a morte de Kurt Cobain, como para os “screenagers” que logo haveriam de surgir na salas de bate papo virtuais. Sarcástico, cáustico e hilário, não obstante, temos uma música simples, cantando com voz rasgada e dona de uma harmonia sensacional.

 “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos.

– O que aconteceu comigo? — pensou.”

Juana Dobro

Com a assinatura característica de David Cronenberg, “Mistérios e Paixões” é um dos mais desconcertantes filmes dos últimos anos. Sem paralelos entre o livro e as imagens, o filme resulta numa obra ficcional e bizarra. Transportado para década de 90, dirigido por David Cronenberg e produzido por Jeremy Thomas, é baseado no romance perturbante de William S. Burroughs, “Almoço Nu”, cuja adaptação cinematográfica dá uma continuidade a obra e a vida do autor. Este alheamento da realidade, transporta-nos para um mundo ficcional com uma estrutura semelhante ao mundo real, mas que no seu ego se mostra perverso. Numa busca das nossas emoções e prazeres mais caros, explora as capacidades aparentemente ilimitadas de abstracão do ser humano, criando um universo muito próximo, onde é difícil distinguir a realidade da alucinação.

No livro de William Burroughs, “Almoço Nu” – “um momento congelado em que todos vêem o que está na ponta do garfo” -, publicado em 1959, não há estória, enredo ou continuidade, nem a intenção de entreter alguém. O autor faz uma crítica à sociedade, por meio de um retrato da Interzone, uma cidade ficcional na qual os homens se transformam em insetos durante o sexo, o destino para onde Burroughs escapou depois de na vida real, acidentalmente, ter morto a sua mulher. E ele mesmo cita que, em seu livro, a palavra é dividida em unidades que formaram uma só peça e assim deve ser tomada, mas as peças podem ser consideradas em qualquer ordem, ligadas para trás e para frente, para dentro e para fora, antes e depois, como um interessante arranjo sexual. A maior preocupação que o autor tinha com o leitor era a visão do vício como modelo de controle e como uma fuga para as repressões impostas pela sociedade, relacionadas às potencialidades biológicas da humanidade.

Willian Burroughs foi um dos grandes nomes da prosa beatnik, primeiro movimento de contra-cultura com uma importante repercussão histórica e cultural a acontecer nos Estados Unidos. Eram jovens que se conheceram dentro e fora da universidade, interessados em escritos não ortodoxos como Rimbaud, Blake, Melville, Withman, Kafka, Nietzsche, dadaístas e surrealistas, que simplesmente pareciam não se ajustarem nas imposições assépticas dos EUA. Inquietos e marginais eram expressamente contra a Indústria Cultural e apostavam em novas alternativas de vida. Buscavam lutar pelo próprio direito, não por um mundo melhor, nem por uma revolução, mas por uma opinião individual.

Nasceu em 1917 e viveu até o ano de 1997. Herdeiro rico, formado em medicina, foi viciado em heroína por 10 anos, e o relato desse tempo está em Junky, seu primeiro livro. “Almoço Nu” foi outro livro importante de sua obra, titulado por Jack Kerouac, no qual o autor “é capaz de olhar o inferno e contar para todos o que viu”. Com uma grande importância na literatura, sua obra influenciou muitas outras expressões artísticas com as suas criações espontâneas, surreais e libertas de qualquer padrão.

David Cronenberg não se limita a folhear “Almoço Nu” e usar para a construção da narrativa de seu filme a própria vida de William Burroughs. “Mistérios e Paixões” enquadra-se numa trilogia específica, que embora não seja indiferente ao tema do corpo, explora abertamente a questão da capacidade da mente para controlar o nosso comportamento e o nosso destino. O poder imaginativo da mente afetada pela droga está presente em quase todas as cenas do filme. Uma viagem pela mente, onde o corpo se assume como protagonista, resulta no exagero dos devaneios do estado de psicose que o dedetizador William Lee (interpretado por Peter Weller) mergulha, chegando ao ponto de matar sua mulher (interpretada por Judy Davis), viciada em dedetê. Fato responsável pela fuga de Lee para a Interzone, uma cidade onde tudo é permitido.

A liberdade criativa do realizador, baseada num fascínio pela vida e obra de William Burroughs, resultaram num filme que ultrapassa as expectativas, ao transpor para o grande cinema a imaginação do universo do escritor, povoando as imagens da nossa experiência com fragmentos do mundo.

Juana Dobro

ORIENTE – SE

30/11/2010

Sharada, em Joinville

 

Que o ocidente e o oriente sempre estiveram muito ligados, não é nenhuma supresa. Entretanto, se pararmos para ver com um direcionamento clínico, nos últimos duzentos anos é que essa relação se tornou mais próxima e somente no período pós-Segunda Guerra é que isso foi se tornando íntimo, a ponto dessas fusões convergirem em culturas muito simbióticas e exemplos não faltam. Nas histórias em quadrinhos temos a influência pungente de Walt Disney sobre a obra de Ozamu Tezuka, por meio da cultura dos “olhos grandes”. Na música, enquanto os Ventures e muitos astros de mpb (Os Incríves e Jorge Ben) ajudavam a lapidar o gosto dos nipônicos pela música pop ocidental, os Beatles, Rolling Stones – bem como outros muitos – recebiam a influência da Índia, tanto em sua musicalidade (vide “My Sweet Lord”, de George Harrison, e a cítara em “Paint It Black”, dos Rolling Stones) quanto em seu modo de vida. O Brasil não ficou longe desse boom, já que o secular clássico hindu, Bhagavad Gîtâ, tornou-se “Gîtâ”, pelas mãos de Raul Seixas e Paulo Coelho.

No cinema, contudo, intensas trocas ocorreram. Podemos citar a forma com que Akira Kurosawa passou a adaptar histórias Shakespeareanas para o Japão feudal: “Trono Manchado de Sangue” para “Macbeth” e “Ran” para “Rei Lear”; sendo também, por sua vez, recontado para o público ocidental por meio do cinema de faroeste: “Os 7 Samurais” que pelas mãos de John Sturges e William Roberts tornou-se “7 Homens e Um Destino” e “Sanjuro”, que na Itália, pelas mãos de Sergio Leone e Luciano Vincenzoni transformou-se em “Por Um Punhado de Dólares”. Da China, podemos citar a precisão dos antigos filmes de Jimmy Wang Yu, Hark Tsui e John Woo, facilmente comparáveis a Sam Peckinpah, em termos de ação e de movimentos de câmera; ou talvez a profundidade dos filmes de Ang Lee e Zhang Yimou, que podem figurar entre seus parceiros do cinema europeu.

Quanto à Índia, apesar de não termos tido acesso à produção Bollywoodiana, muito também foi-nos retratado por meio de filmes que a TV sempre reprisava. Se por um lado víamos a idéia de liberdade retratada em “Mogly, O Menino Lobo”, por outro lado nos constipávamos com o enfadonho, prolixo e insuportável “Passagem Para a Índia”, de David Lean. Contudo, nossa melhor imagem ainda é a do maravilhoso “Convidado Trapalhão” (The Party), filme de Blake Edwards, no qual Peter Seller vivia Hrundi V. Bakshi, um desastrado ator indiano convidado por engano à festa de um magnata do cinema de Hollywood e que, apesar já ter pra lá de uns quarenta anos, continua atual.

Hoje, Bollywood ganha um destaque cada vez maior no ocidente, já que consiste na maior indústria cinematográfica do planeta. Também pudera, para atender um público de cerca de 1.2 bilhões de pessoas, haja indústria de entretenimento. Sua produção mais recente, “Quem Quer Ser Um Milionário”, caiu nas graças do ocidente e serviu como um novo marco do cinema oriental e vale lembrar que não seria nenhum exagero este filme figurar em nossas prateleiras ao lado do famigerado “Cidade de Deus”. Mesmo com direção de um inglês o filme revela a Índia. Ademais, após tanto trabalho ao logo de milhares de anos, a Índia merece ser reconhecida por seu trabalho cultural. Ah sim! Esqueçam da novela pândega e vão assistir bons filmes do oriente!

Além dos filmes indianos, temos profissionais da Índia competindo com um cinema de qualidade até mesmo nos estrelados estúdios de Hollywood, nos Estados Unidos. O diretor indiano M. Night Shyamalan deixou o público e críticos de queixos caídos com seu “O sexto sentido”, suspense que chegou a ser indicado ao Oscar em 6 categorias, inclusive a de melhor filme. Logo de cara Shyamalan se tornou um Cult no meio dos cinéfilos. Entre seus filmes estão: “Sinais”, “Corpo fechado”, “A vila” e “A dama na água”, verdadeiras bombas para alguns, pérolas cinematográficas para outros. Seu novo filme “Fim dos tempos” não é diferente, o estilo de filmagem diferenciado do indiano é visível do inicio ao fim da nova produção. Os filmes da Trilogia de Apu, do diretor indiano Satyajit Ray – A Canção da Estrada (1955), O Invencível (1957) e O Mundo de Apu (1959) – dialogam com o neo-realismo italiano, apresentando a Índia para além das paisagens. Belos e tocantes. Desse modo, na trilogia de Apu, tem-se o herói, herdado do melodrama, que precisa triunfar sobre as dificuldades impostas pelo abismo social que se lhe apresenta. Não ter assistido ao cinema ético do indiano Satyajit Ray, como diz Akira Kurosawa, “significa existir no mundo sem ver o sol ou a lua”.

Para informar um pouco mais, na Índia, convivem tanto as produções comerciais de Bollywood (faladas em hindi, língua majoritária no país), de Kollywood (segunda maior indústria, faladas em tamil) e de Tollywood (em telegu e em bengali), quanto expressões mais pessoais, em geral subvencionadas pelo governo, egressas da elite cultural, intelectual e financeira bengali: enquanto de um lado segue-se a fórmula de filmes de longa duração que, melodramáticos e sentimentais, misturam diversos gêneros (ação, comédia, romance, suspense) em tramas banais recheados por números de dança e de música, de outro lado há a influência marcante do cinema ocidental, seja Eisenstein (especialmente em Ritwik Gathak), neo-realismo – a exibição de Ladrões de Bicicleta em Calcutá em 1952, fundamental para a realização de A Canção da Estrada –, Jean Renoir (que, ao filmar O Rio Sagrado, tem Satyajit Ray na assistência de direção), ou as obras americanas de John Ford e de Orson Welles.

Sharada Ramanathan

Quem confirma bem isso tudo é a indiana Sharada Ramanathan, diretora da MS Media e da Golden Square Films e assessora especial em economia criativa para a Organização das Nações Unidas (ONU). A cineasta esteve no Brasil ministrando algumas palestras sobre empreendimento e cultura. Durante a visita, compartilhou um pouco de seus conhecimentos e interesses comigo.

Sharada trabalha com filmes nacionais, coorporativos, publicitários, comerciais e todos esses setores audiovisuais. “O setor privado serve para ganhar dinheiro, mas eu também necessito explorar meu lado criativo, de inspiração, produções independentes”, explica. “Quem irá lançar meus filmes? Eu tento contrabalancear as duas coisas.”

 Ela gosta muito do Brasil, é apaixonada pelo país. “Acredito que os filmes indianos poderiam circular melhor no país”, comenta Ramanathan. Para a cineasta, países como o Brasil, a China, a África e a Índia precisam fazer mais trocas. “Esses países têm um vasto potencial criativo lucrativo para ser explorado”, justifica.

 E não é que ela gostou da novela! Sua tradutora, companheira de trabalho na ONU e amiga, Ana Carla Fonseca Reis, conta que Sharada sorriu com o que viu e ficou muito empolgada. Para ela, a novela pode trazer uma ligação mais forte entre os países. Será?

Enfim, a diretora indiana já esteve no Brasil em outras circunstâncias, em alguns congressos e encontros.  Mas de qualquer forma, essa viagem ao Brasil é muito singular porque ela acredita que aqui existem novos mercados e um potencial criativo muito grande em ascensão. “Espero que quando voltar para a Índia eu possa levar possibilidades futuras e concretas de trabalhos de parcerias entre os dois países.”

Revelando a Sharada

INVENTA – Qual a ligação entre a economia e a produção de filmes? A que se deve o impacto econômico da produção de filmes? Como a cultura acompanha o desenvolvimento econômico do país?

SHARADA – Eu não sei se vocês sabem, mas o audiovisual na Índia já tem quase 100 anos. Devido também a essa história e a um crescimento na economia nos últimos anos, a Índia se tornou um pólo de tecnologia em filmes comerciais e publicitários. Mas o que é importante é que ao passo em que essa economia cresce é crucial que o conteúdo e as idéias também cresçam. Porque uma coisa acaba sustentando a outra. Para que a economia cresça, as idéias e os conteúdos têm que também se aprimorar. É por isso que a cultura e a economia devem caminhar juntas. É o potencial de mercado do país que acelera a sua capacidade de produção. Isso não diz respeito apenas ao audiovisual. A Índia, o Brasil e a África do Sul devem fortalecer a aliança que vêm criando devido a suas fortes culturas e ao crescimento de mercado.

JUANAO Oscar mostrou o cinema indiano para o mundo. Entretanto, é importante salientar que já a partir de 1999 os grandes estúdios americanos e algumas companhias européias já tinham dado partida visando à conquista deste mercado. O que mudou na produção cinematográfica da Índia com esse reconhecimento?

SHARADA – Boa pergunta. O mercado cinematográfico da Índia é realmente muito grande. É um mercado de várias centenas de milhões de dólares. E com certeza o filme “Quem quer ser um milionário?”, conseguiu atrair uma maior curiosidade sobre o mercado indiano, mas há dois tipos diferentes de filmes produzidos:  os filmes do mercado indiano e os filmes de um mercado internacional que apelam para conteúdos indianos. Apenas usam o espaço e os atores indianos. Mas já havia indianos trabalhando na Europa com cinema e nos Estados Unidos. Inclusive, o filme que eu dirigi foi premiado em Los Angeles. Mas, além disso, temos uma série de festivais tradicionais e outros nem tanto, que vêm difundindo o cinema no mundo todo. E acima de tudo, a internet, que vem abrindo uma nova variedade de canais para uma nova humanidade. O próprio autor da música do filme “Quem quer ser um milionário?” talvez não tivesse ganhado um premio equivalente no mercado indiano, porque eles valorizam uma cultura diferente e a concorrência nesse sentido, na Índia, é uma coisa impressionante.

 

JUANAO filme vencedor do Oscar, “Quem quer ser um milionário?”, pode ser considerado uma porta de entrada para outros filmes indianos nos mercados estrangeiros, como o Brasil?

SHARADA – O diretor do filme não é indiano, porém todo o restante da equipe (cinegrafistas, roteirista, operador de som, etc) é composta por indianos. Por este lado, pode ser considerada uma porta de entrada. Mas meu trabalho é muito anti-Bollywood. Meu trabalho é mais independente, alternativo. Não obstante, sou uma das únicas cineastas do país a defender lá dentro o filme vencedor do Oscar. Exatamente pelo fato de que, mesmo com um diretor inglês, o time do filme é todo de indianos e a própria ambientação também, isso traz um benefício de exposição no país muito bom. Para complementar, com uma visão de outro ângulo, o filme Elizabeth, foi dirigido por um diretor indiano, há uns 10 anos ou mais. Embora isso, não deixou de ser um filme contemporâneo e retratou uma história absolutamente inglesa. Então, essa questão é sempre uma moeda de duas faces. O “Sexto sentido” e o “Fim dos Tempos” se encaixam nesse mesmo contexto.

JUANAExistem diferentes linhas de cinema na Índia. Hoje, o mundo conheceu Bollywood. E as outras indústrias?

SHARADA – Há cinco grandes linhas de indústrias audiovisuais na Índia, Bollywood é uma delas, de uma região. A minha cidade representa Kollywood. Ainda há outras três, cada uma com características bem peculiares. Eu tenho colegas de Bollywood que ficam inquietos por eu falar bem do filme de Danny Boyle, por conta de ser de outra vertente. Bollywood, Kollywood, Tollywood, Sallywood, Shollywood (…).

JUANAO filme indiano Dhoom:2, do diretor Sanjay Gadhvi, foi filmado aqui no Brasil, no Rio de Janeiro. Esse seria um exemplo de um novo caminho, uma experiência entre os dois países?

SHARADA – Foi um filme produzido na Índia e filmado no Brasil, então não tem muita ligação. Ele teve uma bilheteria mais ou menos na Índia, porém serve como um exemplo. Um começo, quem sabe.

JUANAA Índia não tem só maior produção, mas tem a maior bilheteria do mundo. Essa bilheteria tão grande é voltada aos filmes indianos ou estrangeiros?

SHARADA – Os grandes créditos são para os filmes indianos sim e não para os americanos e de outros lugares, como aqui no Brasil. O filme vencedor do Oscar, por exemplo, teve uma bilheteria pequena na Índia. Talvez porque eles já estejam acostumados com essa temática, pois outros filmes já foram produzidos de forma parecida. Isso porque no meu país há uma variedade imensa de filmes sendo lançados.

JUANAA Índia produz mais de 1000 filmes por ano. No ano passado, 2008, o Brasil produziu cerca de 80 filmes. A que se deve esta diferença tão grande?

SHARADA – Primeiramente à grande população da Índia, com mais de 1 bilhão e 150 milhões de pessoas. Além disso, o país tem uma estruturação de mercado que aqui as pessoas não têm, em termos de distribuição. As pessoas colocam todas as fichas na produção e pouquíssimas na distribuição, isso faz com que a demanda não seja atingida. Ainda, na Índia, existe uma cadeia muito mais equilibrada. O que é produzido é assistido. O indiano adora os filmes feitos no seu país. Aqui eu percebi que ainda existe uma dificuldade nessa aceitação.

JUANAO próprio ator nacional, na Índia, tem um grande destaque, muitas vezes visto como “deus” pelo público. Como é essa relação?

SHARADA – Acredito que essa relação exista em todos os países. Mesmo no cinema americano. Nas novelas. Mas tem uma relação bacana na Índia, porque nós produzimos mais de 1000 filmes, além desses 1000 lançados ainda existem os incompletos e os censurados, é praticamente o dobro desse número que já é gigantesco. Nisso tem um aspecto importante, que é a conexão desses filmes com a vida das pessoas. Eles criam uma intimidade muito realista com os atores. Conseqüentemente, acabam se tornando ícones para o público. 

JUANADe que forma a Índia e o Brasil poderiam unir culturalmente esse potencial criativo tão evidente nos dois países?

SHARADA – Eu acredito que há na Índia um mercado muito bom de trocas de idéias e de criatividade a ser explorado pelo mundo. E tem uma curiosidade muito latente de um país para o outro. A novela sobre o país, por exemplo, no Brasil, abriu uma espécie de caixa de pandora. Ela não retrata a realidade, mas é inspirada em novelas indianas. E novelas sempre trazem fantasia. A Índia fala 22 línguas e mais de 200 dialetos, todos os lugares possuem uma diferença cultural muito grande. Desta forma, a novela vai acabar mostrando um costume específico de uma parte do país, muito bem inspirada, inclusive. Mas deve deixar claro que essa é uma visão particular e não real.

ANA CARLA – Quando a Sharada chegou no aeroporto, no Brasil, as pessoas comentavam: “que bacana, você é indiana”. Isso nunca tinha acontecido. Acredito que ela ficou muito feliz com essa recepção, que só ocorre por causa da novela. Então, se abriu uma curiosidade.

JUANAComo aliar, dentro do mercado, criatividade e reconhecimento financeiro?

SHARADA – Para ser criativo e ganhar dinheiro é necessário um certo “conforto cultural”, em qualquer área. Isso quer dizer, você deve se apaixonar pelo o que faz e se sentir à vontade em relação ao seu trabalho. Se quem esta fazendo o filme não gostar do trabalho que esta desenvolvendo, ninguém mais vai gostar, conseqüentemente. Uma questão fundamental também, é saber compreender a audiência. Não focar seu trabalho apenas para si próprio, ou para quem produz. Tem ainda o fator do comprometimento e do saber trabalhar em grupo. Eu trabalho, diariamente, com mais de 100 pessoas, mesmo em um comercial. Devo saber aproveitar toda essa equipe. Isso me traz um retorno ideal. A primeira idéia ao se produzir algo é entender as pessoas. A sua audiência. Isso formará elementos que irão traçar alguns caminhos do filme, o que vai preencher o restante, é o instinto criativo da pessoa. É esse instinto que fará a diferença no final. Alinhando o interesse do produtor e diretor, com o interesse do público.

JUANAComo uma ativista cultural que defende a diversidade vê a cultura brasileira cinematográfica?

SHARADA – Eu não vi muitos filmes brasileiros, vi alguns. Gostaria de ver muito mais, até por contas dessas possibilidades de trabalhar junto com o país. Vou passar uns meses aqui e pretendo conhecer mais coisas (risos). Não só os filmes comercias, mas as produções independentes também. Eu acredito que existam traços muito comuns entre o meu país e o Brasil, esses traços podem trazer parcerias incríveis. Temos em comum a paixão pela vida, a alegria, o respeito à criatividade e a diversidade cultural. Desta forma, podemos vir a criar co-produções com maior facilidade do que ocorreria entre a Índia e os Estados Unidos, por exemplo.

JUANAAssim como o Brasil, falando singularidades, a Índia possui grandes problemas sociais. Essa realidade, assim como a divisão de castas no país é representada nos filmes indianos?

SHARADA E ANA CARLA – Sim, alguns filmes retratam isso como retratam a realidade. Para o povo indiano essa questão é muito mais cultural do que social. O filme de Danny Boyle usa muçulmanos para evitar entrar nessa questão. Cada um trabalha com os seus valores e costumes.

JUANANos indique um filme e um livro que considere de qualidade para você.

SHARADA –  Prefere não citar. Pensa em muitos.

ANA CARLA – “A Economia Politica da Arte”, de John Ruskin e o sempre imperdivel “Saneamento Basico”.

 

 

CURIOSIDADES

 

Diretor indiano de 11 anos quer filmar com Roberto Benigni. O menino, Kishan Shrikanth, depois de observar crianças vendendo jornal no semáforo, Kishan escreveu um conto sobre um órfão que queria ir para a escola. Essa história foi adaptada e serviu de roteiro para um filme que ele mesmo dirigiu, “Care of Footpath”. O filme custou cerca de um milhão de euros e concorreu no Giffoni Film Festival.

A produtora brasileira Ana Cristina Costa e Silva, da Dharma Filmes, de Brasília, vivenciou esse choque de cultura e de formato de negócios ao realizar a co-produção Brasil-Índia de um longa-metragem. O filme se chama “Tamarindo”, é do diretor e roteirista indiano Indranil Chakravarty.

Ana Carla Fonseca Reis, citada na matéria, lançou recentemente a antologia digital “Economia Criativa como Estratégia de Desenvolvimento – uma visão dos países em desenvolvimento”. Co-edição entre Garimpo de Soluções e Itaú Cultural. O objetivo do trabalho é animar o debate acerca do que é economia criativa, se constitui ou não uma estratégia de desenvolvimento possível e, em caso positivo, o que deve ser feito para que esse potencial se concretize. Para incrementar o acesso a essa discussão, o livro digital está disponível para download gratuito, em português, espanhol e inglês, nos sites http://www.garimpodesolucoes.com.br e www.itaucultural.org.br. O livro conta com um capítulo escrito pela entrevistada Sharada Ramanathan.



Em poucas notas me sensibilizou. Depois de um tempo eu voltei a sentar no sofá da casa do maestro Waltel. Numa tarde chuvosa de domingo em Curitiba, com filha no colo, gravador e caneta em uma mão; chave do carro, bolsa e câmera fotográfica na outra. Eu já o conhecia bem, já o vira tocar e palestrar, uma vez o encontrei numa lanchonete (inusitado!). Mas sempre fico perplexa. Sou fã e me contenho para não abusar dos superlativos. Ao ouví-lo, abstraio a música para me concentrar no artista que a determina. Não sei o que é maior, se é seu som ou sua personalidade. Waltel transcende a arte, não é moderno nem antigo. Possui uma visão global e integradora da música. A emoção é sua receita.

É difícil acreditar que tudo é verdade, a começar pelos cabelos branquinhos Black Power, pele escura e ascendência alemã. Depois vem sua longa história que sem o gravador eu não conseguiria anotar: cada músico e cada personagem que compuseram essa obra biográfica. Não são só 80 anos de vida, mas uns 1000 anos de aventuras e experiências. Mais de 400 obras para violão, do choro à música dodecafônica; Tocou com Strawinski. Foi arranjador, instrumentista, produtor e apresentou com gente do calibre de: Radamés Gnatalli, Tom Jobim, Johnny Mathis, Freddie Cole, Tim Maia, Gal Costa, Caetano Veloso, Françoise Hardy, Frank Rossolino, Nana Vasconcelos, Kenneth Garret, Max Bennet e tantos outros. Só para a Globo, fez incontáveis arranjos e composições: entre para novelas, seriados e jingles. Estudou com Villa Lobos, Sal Salvador e Segóvia; foi professor de Baden Powell e Roberto Menescal; ao lado de João Gilberto, Waltel é um dos pais da Bossa Nova e também do Jazz Fusion; aliás, arranjou todo o primeiro disco de João Gilberto, “Chega de Saudade”. Fez músicas com Pixinguinha e Jacob do Bandolim; elogiado por Astor Piazzola, compôs “Adios Noniño”. Tocou em um trio com Nat King Cole e também com Dizzy Gillespie; com Chico Hamilton, gravou o primeiro disco de jazz rock, pela lendária Sun Records. Convidado por Fidel Castro, reformulou a música de Cuba e a convite do Rei Juan Carlos de Bourbon, para quem tocou, passou 5 anos na Espanha; trouxe ao Brasil as primeiras aulas de música cubana e indiana. Lançou nomes de expressão nacional, sendo arranjador até mesmo do rei Roberto Carlos, além de Cazuza, Elis Regina e outros. Lecionou em universidades; escreveu no jornal O Globo, ao lado de Stanislaw Ponte Preta. Compôs choros, música erudita, dodecafônica, samba, jazz, rock, xaxado, baião, tango, hinos, mantras, trilhas e histórias. Participou (gravou, dirigiu, arranjou, tocou) em 1000 discos fundamentais da música brasileira desde a década de 50. Não obstante, ao lado de Quincy Jones, trabalhou para Henry Mancini e Lalo Schifrin, com antológicas canções para o cinema. Fez todo o arranjo para a trilha sonora dos filmes da “Pantera Cor de Rosa”, o que deu samba e transformou-se no cultuado disco “Mancini Também é Samba”.

Sua humildade surpreende, o faz passar despercebido. O Maestro circula de ônibus pela cidade! Pasmei. Manoel Neto, organizador do livro “A Desconstrução da Música Paranaense”, que estava sentado ao lado de Waltel, foi quem nos apresentou há cerca de cinco anos. Sempre por perto, o pesquisador se preocupa em resgatar essa história toda. Aí eu me pergunto: “Como não o é reconhecido?” Waltel acha graça. Conta que trabalhar nos bastidores não dá fama nem dinheiro. Reclama a dificuldade que vem passando nas Sociedades Arrecadadoras – ECAD. “As leis são invisíveis! Eu instruo os novos músicos a exigirem seus direitos”.

Retratá-lo requer sempre amplo painel. Suas idéias devem ficar para sempre no reino da vanguarda, se é que não pertencem eternamente ao domínio do ideal. Popular e folclórico, defende a identidade brasileira. Conta triste sobre o rumo que a Bossa Nova tomou no país do samba, tornando-se um movimento econômico, não musical.

Depois de uma maravilhosa conversa, eu estava ainda mais encantada (tem assunto para mais de um livro). Orgulhoso, Waltel me trouxe um exemplar de “A Obra para Violão de Waltel Branco”, um belo songbook compilado por Claudio Menandro e Álvaro Colaço. Um de seus poucos registros.

Já me despedindo perguntei-lhe sobre a música atual. (risos) ”Não se fazem mais Bachs e Debussys. Hoje, o sucesso é associado à produção e à política.” E o que falta? “MÚSICO”.

Fui embora, ainda chovia. Corri para o carro para que não nos molhássemos. Waltel abana da janela.

Juana Dobro

 

Difícil trazer algo novo quando tanta coisa já foi dita e redita sobre a passagem do Crumb pelo Brasil. O que se pode diferenciar é o olhar de cada um. Muitos jornalistas e muitas pessoas que passaram pela Flip este ano o fizeram pelo interesse irreverente na obra de Robert Crumb. Quando eu soube da confirmação dele fiquei histérica na busca de uma forma de chegar à Parati. Ônibus, carro, avião, dinheiro, trabalho, filha, pousada, tempo, espaço. Nada que a força de vontade não supere.

Muitas vezes já me senti uma mulher crumbiana (fortinha). E é nessa ótica feminina que eu sempre fui fã das obras desse quadrinista. Sabe aqueles sentimentos que as mães têm quando vão ver um show do Roberto Carlos no ginásio de esportes da cidade?! Assim eu fico quando leio o Crumb. Enquanto Roberto Carlos enxerga o coração dessas mães, Crumb também fala, ao seu modo, à auto-estima feminina.

Sou um pouco suspeita para comentar a respeito, mas tudo bem, pois se a noite de amores é inevitável, então o negócio é relaxar e gozar! Confesso que nunca fui uma fã de carteirinha dele, até bem pouco tempo. Meus amigos sempre comentavam e diziam que eu era tão perfeita fisicamente que só mesmo o Crumb podia ter me desenhado! Hahaha…, todo escritor aumenta um pouquinho o enredo. No entanto, só fui começar a entender seus livros de verdade quando vi o documentário sobre sua vida. É incrível como um sujeito que tinha tudo para dar errado, conseguiu se sair tão bem na vida! Vai lá, o cara é extravagante e meio estrela também, mas eu dou razão para ele! É um tanto chato ser rodeado de pessoas e jornalistas de chocadeira que sequer o conhecem como sua obra exige. Ademais, é sempre bom lembrarmos que – bem ou mal – a obra é uma extensão do artista, ainda que Barthes contradiga essa máxima.

No século XIX, Honoree de Balzac exaltava a mulher de trinta, dando origem ao termo “balzaquiana”, que em resumo mostra que a mulher chegou no seu auge; da obra de Crumb nasceu também um padrão de beleza: a mulher crumbiana! Esta, uma mulher forte, decidida e com a qual machinho nenhum vem “se meter à besta”. A antítese às figurinhas macabras que povoam o Fantástico Mundinho da moda e às bonequinhas presentes na tevê e no cinema. A mulher crumbiana é tudo o que toda mulher que se ama sonha em ser! Aliás, imagina só que foi ele quem fez a capa para o disco “Cheap Thrills” da Janis Joplin! Tudo bem que ela não passou dos 27, mas o que vale, além de sua voz para sempre calçada no coração da humanidade, é a forma carinhosa como Crumb a retratou. Que honra maior uma mulher poderia querer?!

Pessoalmente, ainda sinto que meus amigos exageravam quando me chamavam de crumbiana, até porque sou uma simples mortal, jornalista e mãe de família, apaixonada por tudo o que faço. Mas o fato me fez conhecer e admirar esse autor a ponto de me tornar uma ávida apreciadora de seu trabalho.

Tive o prazer de vê-lo na última FLIP e acreditem, ele foi um legítimo cavalheiro. No entanto, até onde eu pude perceber, a imprensa preferiu cutucar a onça com vara curta, criticaram sua postura e deixaram a desejar nas entrevistas. Eles já sabiam que ele era antissocial e sequer souberam respeitar isso, afinal misantropos e sopas são coisas muito semalhantes: comem-se pelas beiradas! Em tudo quanto é canto a gente lê que ele tratou os repórteres com frieza e esculhambou os fotógrafos até não poder mais. Agora convenhamos, o cara se enfiou em um remoto cantinho lá na França para justamente se manter longe de todo esse frenesi. Não quero criticar os jornalistas (estaria dando um tiro no próprio pé), mas é um fato consumado que o sistema os imbeciliza e acaba com profissionais que poderiam fazer muito mais do que supõe-se sua vã formação. É sempre bom lembrar que o Crumb vem de uma geração de idealistas e sempre será lembrado como um ícone da contracultura. Está certo que hoje o cara é um idealista frustrado, mas ainda assim, continua sendo um artista ímpar.

Outra coisa interessante foi ver que em determinados momentos, quando perguntado sobre o que achava de determinado novo talento, ele sempre respondia que nem sabia quem era, e boa parte da imprensa usava isso como munição para achincalhá-lo. Ora bolas, ele estava no seu direito! Afinal, ele é o Crumb!

Enfim lá estava eu sentada diante dele, sua mulher Aline Kominski (legitima personagem), o não menos talentoso Gilbert “Freak” Shelton e sua esposa Lora Fountain. Mandei a ver com minhas perguntinhas que renderam algumas matérias por aí. Lá vai:

Logo de inicio quando lhe perguntaram sobre sua opinião acerca do trabalho da nova geração de quadrinistas como o de Dash Shaw, ele responde que não conhece. Gilbert também. Aline justificou o fato com a ausência deles a esse mundo midiático. Quando foi questionado por retratar a América ele comentou duramente que o rosto da América hoje é “ugly, very ugly”, porque se tornou um estado fascista, e por mais que algum grande estadista queira ou tente mudar isso, as forças destrutivas são muito maiores. Depois explica qual é a relação da sua vida pessoal com o Genesis: “nenhuma”. Ele só tentou retratar a história de uma forma mais cômica. Disse que gosta dos mitos, da riqueza dessas histórias, de Sodoma e Gomorra, dos mistérios antigos. Ao lhe perguntar sobre a cantora Aracy Cortes e a escolha dela para fazer parte da coletânea composta por Crumb, intitulada “Hot Woman”, o escritor citou sua paixão pelos discos de 78 rotações e ainda acrescentou: “se alguém tiver algum disco para vender, eu compro”.

No restante da entrevista eles mantiveram a pose o e caráter característicos, proporcionando risadas e muita franqueza e objetividade. “É bizarro participar da Flip”, comentou Crumb, “Não quero ser levado a sério”, conclui.

 “Eu não conheço nenhum jovem”, respondeu Shelton quando questionado sobre a nova juventude e as influências massivas da mídia.

 “Mercado competitivo? Você deve estar zoando…”, disse ironicamente Crumb depois de ser interrogado pelo mediador, o jornalista Sérgio Dávila. Drogas, barbas, folk music, mulheres… Alguém sempre acabava caindo nessas questões com os dois que respondiam quase caricaturadamente com feições e gestos engraçados.

Além de todo essa papo, Crumb citou muito sua família. Sua filha, também desenhista, e seu neto. Todos, hoje, morando na França. “Voltar para os EUA? Eu não! Tenho vergonha de ser americano. Tenho vergonha até de morar no planeta. Nós estamos todos encrencados”

E para completar, já que a festa era literária, eles não gostam de ficção, estão tentando ler os clássicos e admiram livros de jornalismo investigativo.

No final do bate papo eles elogiaram a cidade de Paraty e confessaram que só vieram para o Brasil porque suas esposas os convenceram. Adoraram nosso guaraná! Interessante. “Só não se esqueçam, eu sou um artista do século XIX”. “Draw or die”.

Juana Dobro

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